xivaismo:ratie:irsa:consciencia-sujeito-objeto
CONSCIÊNCIA SUJEITO-OBJETO
IRSA
- É o sujeito consciente que “faz de si mesmo um objeto” — atmanam jneyikaroti — sem contudo reduzir-se a ele, pois permanece “não-objeto” — ajneya — sendo capaz de extroversão — bahirmukhatva — ou seja, manifestando-se a si como fora de si ao se manifestar como objeto, mas essa extroversão existe apenas em virtude da introversão fundamental — antarmukhatva — da consciência.
- Atmanam jneyikaroti: fazer de si mesmo um objeto — ato pelo qual a consciência se objetiva sem se reduzir à objetividade
- Ajneya: não-objeto, incognoscível como objeto — qualidade do sujeito que permanece irredutível à objetivação
- Bahirmukhatva: extroversão — orientação da consciência para fora de si mesma, para o domínio da objetividade
- Antarmukhatva: introversão — orientação fundamental da consciência para dentro de si mesma, que torna possível toda extroversão
- É porque a consciência nunca sai de si mesma para se perder em uma exterioridade inconsciente que pode ser consciência da exterioridade
- A intencionalidade — aunmukhya — pressupõe liberdade, pois aquilo que não é um Si — que é inerte, jada — não se orienta em direção a um objeto de conhecimento
- Aunmukhya: intencionalidade — orientação ou abertura da consciência em direção ao Outro
- O objeto inerte é incapaz de se voltar para qualquer Outro, porque estender a mão para o Outro já seria perder-se nele
- A consciência é capaz de se extroverter e confrontar o Outro precisamente porque é perfeitamente independente dele — e é independente dele porque o Outro nunca é outra coisa senão ela mesma se manifestando como o Outro
- A heteronomia ou determinação pelo Outro — paratantrya — aparece como manifestação da liberdade soberana ou autonomia — svatantrya — da consciência
- Paratantrya: heteronomia, dependência em relação ao Outro
- Svatantrya: liberdade soberana, autonomia absoluta — atributo central da consciência absoluta na Pratyabhijna
- “Para a consciência — vimarsa — que é capaz de suportar tudo — sarvaṃsaha — tem uma natureza tal que transforma em Si — atmīkaroti — aquilo que, não obstante, é Outro — para —, e que transforma em Outro — parīkaroti — o Si — atman; que faz deles uma única entidade, e anula seu par unificado.”
- Essa consciência soberanamente livre se aliena — brincando de ser o Outro, é apanhada no jogo e perde a plena consciência de si mesma — individualizando-se em uma forma limitada porque, esquecendo-se de sua liberdade, chega a tomar o Si pelo Outro e o Outro pelo Si.
- Toma o Si pelo Outro quando não mais apreende o objeto como um aspecto de sua própria manifestação, mas como uma entidade independente dela — svatantra
- Toma o Outro pelo Si quando identifica um objeto particular assim isolado com o dinamismo consciente do qual ainda tem uma experiência incompleta
- Essa alienação não é mais do que o livre jogo do Si — a consciência só se aliena porque se torna alienada, só é subjugada porque concorda em parecer subjugada, por meio de uma prodigiosa e ainda assim muito comum faculdade de esconder de si mesma o que de outro modo sabe
- Esse poder de maya — mayasakti — é prodigioso no sentido de que é o desempenho do ato mais difícil de realizar — atidurghaṭa — uma vez que a consciência, por natureza automanifestante — svaprakasatva — consegue erguer uma tela impossível entre si mesma e si mesma, lançando um véu — avarana — que a impede de perceber-se como é
- Mayasakti: poder de maya — a capacidade da consciência absoluta de se iludir a si mesma e aparecer como limitada e alienada
- Atidurghaṭa: o ato mais difícil de realizar — qualificativo do poder de maya como façanha paradoxal da consciência autoluminosa
- Avarana: véu ou ocultamento — o que impede a consciência de perceber sua própria natureza
- O poder de maya não é menos banal, pois todo sujeito empírico já o experimentou na distração ou falta de atenção — anādara — em seus vários graus, sendo que todo sujeito consciente é capaz de não perceber o que vê e, mais ainda, de não querer saber o que sabe — no jogo, por exemplo.
- Anādara: distração, falta de atenção, descaso — a forma cotidiana e ordinária do poder de maya
- Todos sabem que podem ser apanhados no jogo da ficção, esquecendo por um tempo o que no entanto sempre sabem de certa forma — que é apenas ficção e que estão voluntariamente se deixando levar
- O samsara é aquela “fábula” — katha — ou “teatro” — natya — cuja natureza fabulosa ou teatral a consciência absoluta finge esquecer
- Samsara: ciclo de existências condicionadas, o mundo da experiência ordinária marcada pelo esquecimento da natureza absoluta da consciência
- Katha: fábula, narrativa — metáfora do samsara como história que a consciência conta a si mesma fingindo esquecer que a inventou
- Natya: teatro — metáfora do samsara como representação teatral em que a consciência absoluta é simultaneamente autor, ator e espectador
- O sujeito empírico não é outra coisa senão aquela liberdade que finge se alienar
xivaismo/ratie/irsa/consciencia-sujeito-objeto.txt · Last modified: by 127.0.0.1
