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LIBERDADE DA CONSCIÊNCIA
IRSA
- A noção de svatantrya reaparece nos textos da Pratyabhijna dedicados ao estatuto ontológico da diferença — bheda — pois se tudo é o Si e o Si não se dissolve em pura multiplicidade, a diferença que se manifesta parece à primeira vista ter de ser entendida como ilusão pura e simples, e Abhinavagupta chega a chamar o mundo fenomenal tecido de diferenças de “grande ilusão” — mahabhranti.
- Bheda: diferença — o caráter diferenciado dos fenômenos mundanos cujo estatuto ontológico a Pratyabhijna busca determinar
- Mahabhranti: grande ilusão — qualificativo do mundo fenomenal em Abhinavagupta, não no sentido de puro nada mas de manifestação incompleta
- A ilusão não está na consciência da diferença, mas em sua consciência incompleta — apurnakhyati — isto é, na apreensão de uma diferença exclusiva, uma alteridade radical
- Apurnakhyati: manifestação incompleta — o erro não consiste em perceber a diferença, mas em percebê-la de modo exclusivo, sem apreender o fundo de identidade que a sustenta
- Tal diferença só se manifesta contra o pano de fundo — bhitti — da identidade, pois é porque o objeto é uma forma assumida pela consciência que pode ser apreendido como outra entidade
- Bhitti: pano de fundo, substrato — a identidade da consciência sobre a qual a diferença se recorta
- A identidade exclusiva ou simples não-diferença — abheda — é uma realidade tão construída e tão incompleta quanto a diferença exclusiva, sendo produto dela, pois se torna consciente dela excluindo tudo o que ela não é, por um mecanismo de exclusão do Outro — anyapoha
- Anyapoha: exclusão do Outro — mecanismo pelo qual se produz a identidade exclusiva como mero negativo da diferença
- A pressuposição fundamental do budista — raiz de sua crítica à noção do Si — é a ideia de que o que é uno não pode ser múltiplo, nem o que é idêntico pode ser diferente, e Abhinavagupta formula explicitamente esse princípio ao afirmar que “a essência dessa tese prima facie budista reside apenas nisso: como poderia uma entidade ser una — eka — e ter uma natureza múltipla — aneka?”
- Eka: uno — qualificativo que o budista considera incompatível com a multiplicidade
- Aneka: múltiplo — qualificativo que o budista considera contraditório com a unidade
- Abhinavagupta faz o mesmo diagnóstico em relação ao Advaita Vedanta — os vedantins que consideram a contradição — virodha — entre diferença e identidade — bhedabheda — impossível de justificar e inexplicável — anirvacya — porque consistiria em desconhecimento — avidya — enganaram a si mesmos tanto quanto enganaram os outros
- Virodha: contradição — princípio lógico segundo o qual identidade e diferença se excluem mutuamente, pressuposto compartilhado por budistas e vedantins que a Pratyabhijna rejeita
- Bhedabheda: diferença-e-identidade — a relação paradoxal que o Advaita Vedanta considera inexplicável e que a Pratyabhijna afirma ser a própria natureza da consciência livre
- Anirvacya: inexplicável, indizível — qualificativo dado pelo Advaita Vedanta à relação entre identidade e diferença
- Avidya: desconhecimento, ignorância — para o Advaita Vedanta, a causa da aparência ilusória da diferença
- O sautrântika budista infere a existência de objetos externos porque assume que a consciência é indiferenciada e que apenas uma causa variada pode produzir um efeito variado; o vijnanavadin assume um mecanismo de múltiplos traços residuais pela mesma razão — ambos admitem como natural que o múltiplo não pode surgir do uno
- É precisamente a Pratyabhijna que se propõe a mostrar que a consciência, por ser livre, supera essa contradição, e que cada indivíduo experimenta constantemente essa superação, pois toda consciência é capaz de assumir as mais variadas formas permanecendo una — “pois para todos, mesmo para um animal, é estabelecido pela simples autoconsciência — svasamvedana — que mesmo a água e o fogo, recebendo unidade — ekata — na medida em que repousam dentro da consciência, não são contraditórios — aviruddha.”
- Ekata: unidade — a unidade que os objetos mais contraditórios recebem ao repousar dentro da consciência
- Aviruddha: não contraditório — qualificativo dos opostos quando apreendidos no interior da consciência una e livre
- A diferença não é contraditória com a identidade porque a identidade do Si não é uma simples ausência de diferença — não consiste em repousar em um “ser-só-si-mesmo” — atmamatrata — não é uma adequação pura e simples a si mesmo, porque o Si é aquilo que faz com que ele mesmo seja-si-mesmo.
- Atmamatrata: ser-só-si-mesmo — a adequação estática a uma essência fixa que a Pratyabhijna recusa como definição do Si
- No lugar da crítica budista que dissolve todo ser em uma alteridade irredutível e da ontologia monista do Advaita Vedanta que anula toda diferença em uma identidade estática, a Pratyabhijna substitui uma ontologia do ato para a qual ser é fazer-se ser
- A consciência transcende a contradição da identidade e da diferença porque para ela ser é “ser o agente da ação de existir” — bhavanakartṛta — e sua identidade não é a adequação a uma essência que a preexiste, mas o jorro ou “fulguração” — sphuratta — de todo o ser, incluindo o ser do não-ser
- Bhavanakartṛta: ser o agente da ação de existir — definição dinâmica do Si como atividade pura de autoprodução
- Sphuratta: fulguração, jorro, irradiação — o dinamismo pelo qual a consciência se desdobra em toda a variedade do ser
- A essência da consciência é precisamente transcender sua própria essência — apresentar-se como o Si em um afastamento imperceptível de si mesmo, em um tipo de êxtase imóvel que os filósofos da Pratyabhijna identificam com a “vibração sutil” descrita pelo Spandakarika
- Spandakarika: “Estrofes sobre a vibração” — texto fundamental do Shaivismo do Cachemira que descreve o pulsação ou vibração — spanda — como o dinamismo essencial da consciência absoluta
- A variedade fenomenal, longe de contradizer a identidade assim entendida, é apenas seu desdobramento, e longe de ser um obstáculo ao reconhecimento do Si, constitui um caminho genuíno — upaya — para a libertação.
- Upaya: meio ou caminho para a libertação — a variedade fenomenal é reabilitada como via de recognição do Si
- A variedade — citratva, vicitrata, vicitratva, vaicitrya — que é precisamente a unidade do um e dos muitos, é frequentemente comparada por Utpaladeva e Abhinavagupta à pintura — citra — objeto estético que une em si multiplicidade e unidade
- Citra: pintura, variedade colorida — metáfora da variedade fenomenal como obra de arte da consciência livre
- Yogaraja aponta que os termos que significam variedade são também sinônimos de ascarya — o surpreendente, o extraordinário, o maravilhoso — pois a liberdade da consciência é inseparavelmente bem-aventurança — ananda — o maravilhoso prazer de si mesma
- Yogaraja: filósofo do Cachemira e comentador de Abhinavagupta
- Ananda: bem-aventurança, alegria — dimensão essencial da consciência absoluta na Pratyabhijna, inseparável de sua liberdade e de sua atividade criativa
- Aquele que contempla a variedade fenomenal como um esteta — sahrdaya — já está recuperando a identidade com o Si que nunca perdeu, porque sua admiração — camatkṛti, camatkara — já é a consciência, embora parcial e fugaz, do dinamismo infinito da consciência
- Sahrdaya: o esteta, o “de coração aberto” — aquele capaz de apreciar a variedade fenomenal como expressão da liberdade do Si
- Camatkara ou camatkṛti: admiração estética, deleite — a experiência do maravilhoso que é já uma forma de recognição do Si
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