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MAYA E EQUÍVOCO
IRSA
- Os filósofos da Pratyabhijna apresentam o conhecimento errôneo — moha, equívoco, aturdimento ou confusão — como o desdobramento de maya, que é o poder — shakti — por meio do qual o Si brinca de aparecer como Outro, sendo o domínio de maya — mayapada — um universo de sujeitos e objetos limitados e distintos entre si que não é, para desagrado dos vedantins, o domínio de uma ilusão inexplicável.
- Moha: conhecimento errôneo, equívoco, confusão ou aturdimento — o estado de alienação do sujeito empírico em relação à sua própria natureza
- Maya: poder de aparência e dissimulação da consciência — termo que os autores optam por não traduzir por falta de equivalente adequado nas línguas europeias
- Mayapada: o domínio de maya — o universo da experiência ordinária de sujeitos e objetos limitados e distintos
- Embora maya seja de alguma forma manifestação — já que é aparência — é também seu oposto, a dissimulação, pois para aparecer como o que não é o Si deve ser capaz de uma dissimulação de si mesmo — svatmapracchādana
- Svatmapracchādana: dissimulação de si — a capacidade do Si de se ocultar a si mesmo que está na raiz do reconhecimento errôneo
- Essa faculdade de se dissimular na raiz do reconhecimento errôneo é novamente referida por Utpaladeva e Abhinavagupta como o “poder de maya” — mayasakti
- O reconhecimento não produz conhecimento do Si, mas apenas dá plena consciência de que tal conhecimento sempre já é possuído — dissipando o misterioso reconhecimento errôneo causado pelo poder de maya como o vento dissipa as nuvens — e o Si não pode ser objeto de conhecimento, mas apenas de reconhecimento, porque é o fundamento de todos os meios de conhecimento, a condição transcendental de todo pramana.
- Os meios de conhecimento só podem estabelecer um vyavahara — uso comum no reino da existência mundana — termo sânscrito sem equivalente exato nas línguas europeias que designa tanto o reino da existência prática em sentido amplo quanto qualquer forma de uso linguístico
- O Si é precisamente aquilo que, por tornar possível o vyavahara, o transcende — permanecendo inacessível ao pramana
- De acordo com Utpaladeva, é possível remover o reconhecimento errôneo do qual o Si é objeto “trazendo à luz os poderes do Si” — shaktyaviskarana — de modo que a função do tratado parece ser não a demonstração do Si, mas essa simples mostração ou trazer à luz.
- Shaktyaviskarana: trazer à luz os poderes do Si — a operação pela qual o tratado remove o reconhecimento errôneo sem propriamente demonstrar o Si como objeto
- Permanece a questão de como essa distinção entre mostração e demonstração pode ser conciliada com a afirmação de Abhinavagupta de que o tratado assume a forma inferencial de um silogismo de cinco membros
- Sastra: tratado filosófico — a obra em questão, cujo estatuto epistemológico e soteriológico precisa ser determinado
- Os autores da Pratyabhijna são atraídos pelo movimento dialético do sastra em uma demonstração que poderia transformar o Si — cuja subjetividade pura afirmam preservar — em um mero objeto para a razão?
- Ou a razão deve se afastar diante da intuição dessa subjetividade pura e dar lugar a algo como um salto metafísico?
- É tanto o estatuto epistemológico do reconhecimento quanto o estatuto soteriológico do tratado que precisam ser determinados — e ambos só podem ser julgados por meio de um exame da abordagem filosófica da Pratyabhijna
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