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NÃO EXISTE UM SI PERMANENTE (STHIRA)...
IRSA
- A discussão encenada por Utpaladeva começa com a posição budista segundo a qual há um tipo de cognição — jnana — que tem como aparência — abhasa — uma entidade singular — svalaksana, e outro tipo chamado conceito — vikalpa — que envolve linguagem — abhilapa — e assume várias formas, sendo que nenhuma dessas duas cognições pertence a um sujeito percebedor permanente — draṣṭṛ, nitya — porque não há manifestação desse sujeito nessas cognições.
- Jnana: cognição — evento consciente instantâneo segundo a psicologia budista
- Abhasa: aparência — o modo pelo qual um objeto se apresenta na cognição
- Svalaksana: entidade singular, particular — o objeto da percepção sensorial direta, por oposição ao objeto do conceito
- Vikalpa: conceito ou construção mental — a cognição discursiva e linguística por oposição à percepção direta
- Abhilapa: linguagem, expressão verbal — dimensão que caracteriza o vikalpa por oposição à percepção pré-linguística
- Draṣṭṛ: sujeito percebedor — entidade cuja existência permanente o budista nega
- Nitya: permanente — qualificativo do sujeito que o budista recusa
- Abhinavagupta explica que, de acordo com o oponente budista, não é logicamente aceitável afirmar que há um Si permanente — sthira — que consiste em consciência, pois não há manifestação de uma entidade autoluminosa permanente — svaprakasa — sendo que apenas as cognições se manifestam em formas como manifestação — prakasa — de um pote, conceito — vikalpa — de pote, reconhecimento — pratyabhijna — de pote, lembrança — smṛti — de pote, imaginação — utpreksa — de pote, e assim por diante, manifestando-se enquanto têm diferentes tempos, diferentes objetos e diferentes formas.
- Sthira: permanente, estável — qualificativo do Si cuja existência o budista nega
- Svaprakasa: autoluminoso, automanifesto — qualidade que o budista recusa ao Si permanente, atribuindo-a apenas às cognições instantâneas
- Prakasa: manifestação — o fato de um objeto aparecer na cognição
- Smṛti: lembrança, memória
- Utpreksa: imaginação, suposição — forma de cognição que envolve a projeção de características não presentes
- Não existe um Si permanente que seria constituído por uma única consciência capaz de manifestar coisas — e embora toda cognição seja caracterizada por uma forma de autoconsciência — svasamvedana — o budista aqui apresentado recusa-se a hipostasiar essa autoconsciência em uma entidade subjetiva permanente que seria o agente da cognição — jnatṛ, pramatṛ — e existiria independentemente das cognições instantâneas.
- Svasamvedana: autoconsciência — aspecto de toda cognição pelo qual ela é ciente de si mesma como evento consciente, que o budista não nega mas recusa elevar ao estatuto de Si permanente
- Jnatṛ: agente cognoscente — o sujeito permanente do conhecimento cuja existência o budista nega
- Pramatṛ: sujeito cognoscente, agente do pramana — equivalente de jnatṛ na terminologia epistemológica
- A questão que se impõe é por que o budista se recusa a admitir a existência de tal entidade permanente que transcenderia a existência instantânea das cognições — por que não admite que o “eu” — sva — que experimentamos na autoconsciência — svasamvedana — pode ser mais do que a cognição instantânea.
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