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XIVAÍSMO NÃO DUALISTA E A QUESTÃO DA IDENTIDADE
IRSA
- O próprio fato do reconhecimento de si, tal como normalmente o experimentamos, implica um paradoxo repleto de consequências epistemológicas e soteriológicas — sabe-se que se é o mesmo de antes, pois do contrário não se reconheceria, mas não se sabe quem se é, pois do contrário não haveria necessidade de se reconhecer.
- A consciência da identidade emerge em todo reconhecimento de si, mas a essência que torna possível a permanência como sujeito escapa
- É porque, embora se saiba que se permanece o mesmo, não se tem consciência do que realmente sustenta essa identidade, que se é um ser sofredor, escravizado e alienado no verdadeiro sentido da palavra — é na medida em que se permanece estranho a si mesmo que se é privado da liberdade que somente a plena realização da verdadeira natureza pode restituir
- Os filósofos da Pratyabhijna contrastam o reconhecimento de si comum — apresentado tanto como indicação da verdadeira identidade quanto como sintoma de uma falta fundamental de autoconhecimento — com uma ordem mais elevada de reconhecimento que implica uma consciência completa e definitiva do que se é
- O cerne da doutrina de Utpaladeva, como indica o título de seus versos — Ishvarapratyabhijnakarika, “Estrofes sobre o Reconhecimento do Senhor” — é a ideia de que a liberdade consiste em reconhecer a si mesmo no “Senhor” — ishvara — compreendendo a identidade entre o sujeito empírico e o Senhor Shiva, a consciência universal dotada de poderes infinitos — shakti — descrita em certos textos shivaítas.
- Ishvara: o Senhor — a consciência universal dotada de poderes infinitos com a qual o sujeito empírico deve reconhecer sua identidade
- Ishvarapratyabhijnakarika: “Estrofes sobre o Reconhecimento do Senhor” — título da obra principal de Utpaladeva que enuncia o programa da escola
- Tanto Utpaladeva quanto Abhinavagupta declaram abertamente pertencer a uma forma não dualista de shivaísmo, e a intuição fundamental a partir da qual todo o seu sistema é ordenado está em sua maior parte já formulada nos textos considerados revelados por essa corrente religiosa
- De acordo com as Escrituras — agamas — não se é nenhum dos elementos nos quais habitualmente se reconhece — nem o corpo, nem os diferentes estados de consciência empírica associados a esse corpo, presos a pontos determinados no tempo e no espaço — pois na realidade se é uma consciência eterna fora da qual nada existe.
- Agama: textos de autoridade transmitidos pela tradição shivaíta, considerados revelados pela corrente religiosa não dualista à qual Utpaladeva e Abhinavagupta pertencem
- É essa consciência absoluta que conhece e age em todo sujeito — ela sabe porque é absoluta — mas em virtude da misteriosa capacidade dessa consciência de tornar-se parcialmente opaca para si mesma, consegue paradoxalmente esquecer até certo ponto que é o único sujeito que conhece e age
- De acordo com os agamas shivaítas não dualistas, é porque se é normalmente alienado — tornado estranho a si mesmo por essa faculdade da consciência absoluta de enganar a si mesma — que se está sujeito ao sofrimento e à morte
- A consciência absoluta é uma bem-aventurança eterna à qual se pode ter acesso desde que se perceba quem se é
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